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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Palestina, Guaranis-Kaiowá e os favelados do Rio de Janeiro:miséria é miséria em qualquer canto?



E se sua casa, seu bairro, de repente fosse tomado? Se você não pudesse mais morar onde mora?. E se decisões de um governo, do qual você não é necessariamente parte, lhe impusessem,e a sua família, toque de recolher, acabassem com seu direito de ir e vir, impedissem seu trabalho…E se  só  restasse uma pequena fagulha de esperança de um dia voltar a viver em paz?
Quando se lê os jornais, ou se acessa as redes sociais, um acontecimento nos chama a atenção: o que está havendo neste momento na Palestina, na faixa de Gaza. (Para quem mora no Rio, esse nome não soa estranho, afinal esse era o apelido de uma região na zona norte do Rio, entre os bairros de Manguinhos e Bonsucesso, recentemente ‘’pacificado”.
Mas as diferenças não param ai.  .Se pensarmos bem há muitos motivos para os que se solidarizam com os favelados nas metrópoles brasileiras,ou com a dos indígenas no seu interior, se comovam com a situação dos palestinos, pois tanto uns ,quanto outros  sofrem violências  parecidas, sendo irmãos em dor e sofrimento. Vejamos:
Para quem não entende direito o que está acontecendo na Palestina,, eis aqui uma breve e parcial explicação: A Palestina era um território onde judeus, muçulmanos e cristãos conviviam. Até que em 1948, com o término da Segunda Guerra, a Organização das Nações Unidas (ONU) dividiu as terras do povo palestino em duas: uma para os próprios palestinos habitarem, e outra parte ficou para os judeus fundarem seu próprio Estado, com amplo apoio norte-americano, sendo que os EUA até hoje são o maior aliado de Israel. Os palestinos obviamente não ficaram felizes em serem expulsos de suas terras e obrigados a viver em um pequeno pedaço do seu território original, e tentaram resistir, mas foi em vão: a superioridade militar israelense era devastadora. O território teoricamente foi escolhido porque seria o local onde o judaísmo se originou.
Imediatamente, os países árabes que ficam próximos ao conflito se manifestaram contra a invasão da Palestina pelos judeus. Até porque palestinos se viram obrigados a imigrar em massa para esses países, já que foram expulsos das suas próprias terras, sem direito a indenizações e nem nada. Egito, Síria e Jordânia atacaram Israel, perderam e o Estado judeu tomou mais terras palestinas, além do que a ONU havia determinado. Após ocorreu outra guerra (guerra dos 6 dias), de Israel contra Egito, Jordânia, Síria e Líbano. Israel ganhou dos 4 países em menos de uma semana.Tendo ainda anexado terras dos países árabes perdedores.
Para vocês entenderem o que está acontecendo agora: os palestinos estão sendo governados Hamas, que começou a lançar foguetes contra Israel. Israel revidou atacando Gaza. O Hamas, que “atacou primeiro”, matou alguns israelenses, e Israel revidou matando mais do dobro de palestinos, sendo a esmagadora maioria dos mortos civis.  Os palestinos não têm frota, nem Exército ou Força Aérea. Não há guerra em Gaza. Esta é apenas a continuidade da execução da força militar por parte de Israel em uma tentativa de tirar até a última pessoa do Estado da Palestina.
Gaza, não é à toa foi chamado de “prisão ao ar livre do mundo.” É o alvo de um ataque criminoso pelo exército de Israel, que deixa uma dúzia de mortos e um número desconhecido, mas pelo menos 100 feridos, muitos gravemente.
Segundo o jornalista político Milton Temer, o assassinato do chefe militar do Hamas(grupo de palestinos que quer que a Palestina volte a ser um Estado que ocupe todo o território de antes de Israel ser fundado) está na raiz do massacre atual sobre Gaza. Ahmad Jaabari foi eliminado, não devido à ameaça de ataques a Israel, mas tão somente pelo oposto, algo que colocaria em perigo os planos de reeleição da dupla fascista Netanyahu/Lieberman.
Jaabari era uma liderança preocupada em levar o Hamas para a arena da negociação, que interrompesse o bloqueio criminoso que Israel realiza sobre Gaza. É bom lembrar ele foi o responsável pelas negociações que permitiram a troca do soldado israelense prisioneiro há anos em Gaza,  por mais de cem presos políticos palestinos, presos em Israel por lutarem pela liberação de seu País.
O assassinato de Ahmad Jaabari, numa rua central de Gaza, por bombardeio aéreo, detonou a represália dos militantes do Hamas na fronteira. Logo,  longe da mentira israelense de invocar defesa contra ataque prévio de militantes palestinos, foi por parte  dos israelenses a iniciativa deliberada de quebrar a trégua, com a intenção de  cerrar fileiras do eleitorado da direita fascista, majoritária no Knesset, o parlamento de Israel, com o objetivo de garantir sua reeleição nas eleições em janeiro.
Não há como ser imparcial nessa situação. Ou se está do lado dos oprimidos, os palestinos, ou do lado dos opressores, a elite terrorista de Israel. É a Palestina que está sob ocupação, e não Israel. São as crianças palestinas que estão impedidas de crescer em um ambiente tranquilo e saudável, e não as israelenses.
Mas, não é deles que eu quero falar, tão somente:
Assim como os palestinos, os índios  Guarani–Kaiowá no Brasil estão sendo aniquilados covardemente por conta das riquezas em sua terras,  Estão sendo caçados, mortos. E tal qual os israelenses, os fazendeiros gastam muito dinheiro para convencer a opinião pública mundial e de seu país de que o agressor é que é o agredido. Procuram de esta forma justificar a violência para com esses seres humanos, lá em Israel e aqui. E infelizmente há aqueles que acreditam em tais mentiras, em ambos os casos.
A situação dos guarani-kaiowá, segundo grupo mais numeroso do país, é considerada a mais grave. Confinados em reservas como a de Dourados, encontram-se em situação de catástrofe humanitária: além da desnutrição infantil e do alcoolismo, os índices de homicídio são maiores que em zonas em guerra, como o Iraque. Os índices de suicídio estão entre os mais altos do mundo: enquanto a média do Brasil é de 5,7 por 100 mil habitantes, nessa comunidade indígena supera os 100 por 100 mil habitantes. Pesquisadores identificam na falta de perspectivas de futuro as causas da tragédia.
E agora,caro leitor, você pode perguntar: “o que tem em comum os favelados cariocas com os palestinos, lá desse país a meio mundo de distância?”
A resposta vem em forma de uma estrofe de uma canção antiga: ‘miséria é miséria qualquer canto”.
Assim como os palestinos, os favelados cariocas sofrem com a pobreza extrema, fruto de um poder econômico opressor, por parte de uma elite política e financeira da sociedade de seu país. Se aqueles têm suas moradias invadidas e revistadas por pessoas a serviço do estado, armados com fuzis e metralhadoras, estes também o são, com o mesmo modelo de fuzil.
No Brasil, a juventude negra favelada é presa ou morta por usar seus bonés e ouvir sua música funk,. Já na palestina, os jovens são os que mais sofrem, ao não terem direito de estudar, se divertir. Se aqui, o boné vira alvo do PM, lá os jovens ao serem  vistos com seus lenços são automaticamente acusados, julgados, presos ou mortos nas ruas, acusados de serem membros da Intifada. Originalmente chamado keffiyeh, possui um,  aspecto político fortíssimo, já que é associado praticamente como símbolo de conflitos na região e usado, inclusive pra cobrir o rosto, por integrantes do Hamas, por exemplo, ou simplesmente por gente que defende o Estado Palestino.
Assim como no Complexo do Alemão, ou em outra favela no Brasil, na Palestina é difícil arranjar emprego, quando se diz onde mora. Há uma linha imaginária de preconceito que separa aqueles que podem ou não ter emprego, podem ou não ser morto pelas forças de repressão do Estado sem julgamento.
Sou otimista. Creio que um dia os EUA perderão seu poder econômico, e com ele seu poder na ONU. Então, Israel será punido pelo que faz: crimes contra a humanidade.
Existe uma frase famosa de Che Guevara que diz: “Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo.
MAXIMIANO LAUREANO DA SILVA

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

FAVELA X DISCRIMINAÇÃO


Uns dos elementos primordiais do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas.
No Rio de Janeiro, cidade que alguém já chamou de “partida”, se pode sentir sempre uma linha tênue de convivência do que se chama de “cidadãos do asfalto” e ‘nós do morro” isto é, os moradores nas comunidades carentes. Carentes de infraestrutura, de dinheiro e de preocupação dos políticos para com eles e elas.
A estratégia da distração se dá ai: enquanto as elites políticas e econômicas exploram indistintamente moradores das duas cidades partidas do Rio, a do morro e a do asfalto, em nível maior ou menor, para estes e aqueles.
O processo de demonização e isolamento das zonas periféricas no Rio de Janeiro não é algo recente. Historicamente o sub-urbio, ou seja, aqueles pertos do centro de poder, da urbe, menosprezando aqueles que ficam longe.
Segundo a pesquisadora Vera Malaguti Batista, o Rio de Janeiro do século XIX era uma cidade africana. A autora nos diz que a cidade do Rio e os motivos que fizeram com que o Estado adotasse políticas extremamente intolerantes e direcionadas aos negros e aos seus locais de habitação “A questão é que a entrada maciça de africanos na cidade, entre as décadas de 30 e 50, transformou a mui leal e heroica cidade do Rio de Janeiro num palco de vigorosos embates em todos os níveis, evocando medos, suspeitas, violências e resistências”.
Nesse sentido, segundo a criminóloga, a atitude de separação e  suspeita carregam um forte conteúdo de seletividade e estigmatização, antes para o negro, hoje para o favelado, morador de comunidade.
No espaço público, há uma tendência a se evitar confrontos, porém nos subterrâneos sociais, no espaços privados, longe das luzes do politicamente correto,  ocorre uma demonização velada por parte de alguns moradores do “asfalto” e o isolamento das favelas do Rio de Janeiro produziram um efeito perverso associando tal ritmo ao crime e estigmatizando  toda produção cultural dos pobres.
 “SHHHHH! Não se fala nisso, é politicamente incorreto!” É o que se lê ou se ouve em algumas conversas nas ruas, ou mais recentemente nas redes sociais na internet.
Infelizmente tive acesso a uma dessas conversas e fiquei altamente indignado com seu conteúdo. Vejam só o teor do diálogo:
Usuário X:… “esquece o politicamente correto e entre para o projeto “se essa rua fosse minha”. 
Este é um projeto afiliado ao “favela-bairro”, e funciona assim: você adota uma rua de uma favela para que possam ladrilha-la com pedrinhas de plutônio, urânio e césio. Assim, a população irá ser esterilizada e morta aos poucos pela radiação. E a noite o morro ficará brilhando, em um lindo espetáculo visual
!
Usuário Z “Não adianta matar,! Tem que cortar o mal pela raiz! ESTERILIZAÇÃO UNIVERSAL!
Usuário Y “Putz! onde se faz o cadastro para o projeto “se essa rua fosse minha”?????????? Quero apadrinhe 4 ruas!!!!!!!!! Uhuuu!
Usuário T:”Eu quero apadrinhar uma avenida, e quero um busto meu celebrando meu ato de filantropia!
Achei os comentários preconceituosos demais: primeiro porque não sabem como é a vida em favela. È sofrida, difícil, mas solidária, honesta, e tem seus momentos de alegria. A música, a poesia do Samba e do Funk estão ai para provar e registrar esses momentos. Segundo que acham que só porque se é favelado se tem mau gosto ou é burro. Sou crescido em favela, no Complexo do Alemão, no Morro da Baiana, professor de inglês, e estou para concorrer a um mestrado em Educação.
Todos os meus amigos que vêm de outros países ficam admirados com a beleza plástica e a opção arquitetônica popular das favelas do Rio. Somente o nosso “complexo de vira-latas” não permite perceber isso. “nascer e crescer em favela não é sinônimo de ter mau-gosto ou ser burro”. Ser preconceituoso, sim, é sinônimo de ter mau-gosto ou ser burro. Propor esterilização social (algo que já acontece, se se vê os dados do SUS) é algo que Hitler e Gobles propuseram para várias etnias e grupos sociais. Pobreza de espírito e de informação em todas as camadas, como acabo de confirmar com esses comentários.
Os comentários que li e que poupo os cinco leitores deste texto, estavam com um forte recheio de misantropia. A (des)consideração à “procriação dos favelados” (sic) era a tônica das pessoas que discutiam comigo no fórum dessa rede social, que é um livro de rosto aberto para todos.
Um discurso desmerecedor das comunidades do Rio de Janeiro, dizendo, por exemplo, que: “A favela não é bela e nunca será… Nem que Picasso reencarne e a pinte de neon!”
como diz a matéria do jornalista André Fernandes “Favelas ou Comunidades?  “Favela é favela e caso aconteça de um dia deixar de ser favela, como querem alguns, não será porque os governantes são bonzinhos, mas porque houve muita cobrança por parte de vários líderes, que deram suas vidas para que hoje elas tivessem as melhorias que estão recebendo.”
Eu que sou cria de duas das mais pobres e lutadoras regiões do país, sendo nordestino de origem e morador de favela, digo com muito orgulho: a favela tem muito que ensinar, e muito mais a mostrar: estão ai vários personagens históricos e elementos culturais que não me deixam mentir. Chamo a lembrança do Jongo, do Mestre Darcy do Jongo, do samba de Cartola, de Martinho da Vila, e de tantos outros, que fizeram e  fazem a vida cultural da cidade do Rio de Janeiro percorrer o mundo.
Claro, a favela também tem também muito que melhorar: em Educação, em infraestrutura, em renda e em empregabilidade. Mas nunca “ladrilhá-la com pedrinhas de plutônio, urânio e césio. Assim, a população irá ser esterilizada e morta aos poucos pela radiação.” Isso quem gostaria de fazer talvez fosse um Hitler ou um filhote dele.
Se você se deparar em alguma rede social, ou conversa na rua, com alguém com comentários como esses, denuncie, grite. Este país, esta cidade não pode, nem deve mais tolerar mais tais preconceitos.

Max Laureano - Professor de Inglês, tradutor  escritor.